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DO LUTO À LUTA

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Um ano após o colapso: como estão as famílias arrasadas no pior momento da pandemia no Brasil

Os meses de março, abril e maio de 2022 marcam o primeiro ano de um luto coletivo sem precedentes na história do Brasil. Ao fim desse mesmo período em 2021, o país havia perdido mais de 200 mil pessoas para a covid-19. 

Se o ano passado foi o mais mortal já registrado pelos cartórios brasileiros, março, abril e maio foram os meses que mais pesaram nessa estatística. O número de mortes por covid-19 no trimestre representa mais de 30% de todos os óbitos causados pelo coronavírus até hoje em solo nacional. 

Um ano depois, famílias, amigos, amigas, parentes, colegas, conhecidos e conhecidas ainda vivem as consequência do pesar. Lidam com a ausência de pessoas queridas, que perderam a vida na maior pandemia do século e também enfrentam entraves burocráticos, econômicos e até judiciais no processo.

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“São milhares e milhares de brasileiros que estão sofrendo, hoje, além dos atravessamentos e consequências da pandemia da covid-19, essa dor profunda, que é perder alguém que ama”, afirma a assistente social e pesquisadora Paola Falceta, presidenta da Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico).

Ela fundou a Avico junto com o advogado Gustavo Bernardes em abril do ano passado. Bernardes havia sido internado com quadro grave de covid-19 no fim de 2020. Já Falceta está nas estatísticas de enlutados e enlutadas no trimestre sombrio: perdeu a mãe em março de 2021 por causa do coronavírus.

“Essa faixa de tempo é real. Março, abril e maio representam o pico do colapso da saúde no Brasil e são três meses muito complicados para nós. O pior de tudo isso é que as pessoas ainda não têm forças, pelo luto, pela falta de apoio em saúde mental, pelas dificuldades financeiras. As pessoas estão tirando força da revolta”, aponta.

“A revolta dentro de mim cresce”

O aposentado Elpidio de Souza, de 62 anos, é cardiopata e, no início da pandemia, decidiu com a família por levar o isolamento de maneira rígida. Ele morava com a esposa e o filho, também portadores de comorbidades, além de dois netos, que hoje têm de 12 e 14 anos.

Assim como para a maior parte das famílias brasileiras, frente à falta de apoio do poder público e à crise econômica, a quarentena por um longo período foi impossibilitada. Com a lentidão deliberada no processo de aquisição das vacinas, no ano passado, muitas pessoas se viram obrigadas a voltar ao trabalho e ao convívio social sem imunização.

Em maio de 2021, Elpidio de Souza Junior, de 38 anos, filho do aposentado, era uma dessas pessoas. Como precisava manter a si e à família, ele voltou ao trabalho na construção civil e viajou para Capão da Canoa (RS)

“Uma das maiores crises do litoral (do RS) foi em Capão, por causa da flutuação de pessoas. Ficamos amedrontados, porque nós mesmos não podíamos nos expor”, afirma o pai. A flutuação em questão é referente à chegada de turistas à cidade no verão.

Ele conta que, nesse período, o filho começou a ter sintomas e procurou um hospital. No local, foi diagnosticado com gripe. “Nem o teste fizeram. Nós insistimos para que ele fizesse o teste. Três dias depois, ele retornou ao hospital e, claro, o quadro se agravou. Em Capão, o hospital estava lotado. Ele foi transferido para Santo Antônio da Patrulha e, não deu sete dias, ele veio a óbito”

Seu Elpidio responsabiliza a falta da vacina pelo agravamento rápido das condições do filho. 

“Tem uma culpa aí. Eu acredito muito no sistema público. Eu acredito no SUS. Mas acredito na gestão do SUS. Quando tem má gestão, dá nisso. Não precisava ter morrido 650 mil pessoas e eu tenho absolta certeza de que meu filho não seria um desses mortos se ele tivesse tido a vacina.”

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Com a morte do filho, ele e a esposa ficaram com a guarda dos netos. De uma hora pra outra, passaram a ser responsáveis pelo suporte emocional e pela formação dos dois adolescentes.

Em meio ao luto, a família enfrenta também os desafios econômicos gerados pelo cenário de crise, preços altos e aumento do custo de vida. Os dois netos não conseguiram acesso a nenhum tipo de pensão. O aposentado cita o descaso da gestão do presidente Jair Bolsonaro (PL).

“O cenário foi agravado pela má gestão. Há um descaso. Essa é a minha dor maior. Esse cidadão está cometendo um crime à pátria. Um crime contra pessoas, seres humanos. Tem locais em que a gente sabe quem está morrendo, é a periferia, é o povo preto, o povo pobre”, lamenta.

Para seguir a vida, o aposentado e a família se firmam na fé, mas também na luta, “Eu sou de axé e se não fossem os nossos Orixás, nós teríamos enlouquecido. Nós nos agarramos na fé e eu, como defensor do SUS, já dizia antes e hoje digo mais ainda, é do luto à luta. Não me resta outra alternativa. A pandemia não vai parar e parece que naturalizaram isso. Mas as mudanças são possíveis e eu já vi isso acontecer”.

“Eu não posso viver o tempo todo na tristeza”

A dona de casa Lindinalva Jesus dos Santos, de 47 anos, perdeu a mãe para a covid-19 ainda na primeira onda da covid, em agosto de 2020. Aos 65 anos, Maria Julia Jesus dos Santos tinha diabetes e precisou ser internada por complicações da doença. No hospital, após a amputação de uma das pernas, ela foi infectada pelo coronavírus e morreu.

Ainda em meio ao luto, em maio do ano passado o marido de Lindinalva, Daniel dos Santos, também foi infectado pelo coronavírus. Os sintomas apareceram no início do mês e se agravaram em menos de duas semanas.

“Um amigo dele ligou um dia bem cedo e sentiu que a voz dele estava bem fraca. Durante a madrugada, eu ouvi ele roncar, e ele não roncava normalmente. No dia seguinte, ele tossiu sangue. Nós fomos para o hospital e foi o último dia que eu vi o meu marido com vida”, recorda.

Daniel dos Santos faleceu cinco dias depois da internação, aos 59 anos. Lindinalva perdeu o companheiro de vida, passou por dificuldades financeiras e, um ano depois, ainda busca recuperar a saúde emocional.

“Não está sendo fácil, fiquei dez meses passando por necessidades. Só não passei por mais dificuldades por que tive bons amigos, que me acolheram. Eu estou em tratamento com uma psicóloga, ainda tenho ansiedade. Ainda hoje me peguei pensando: ‘meu marido, como você faz falta’”, afirma emocionada.

Lindinalva conta que mesmo frente à tragédia dupla, ainda tem parentes negacionistas e teme que a covid-19 possa voltar a crescer em ritmo acelerado no Brasil pela falta de conscientização da população e pela inação do poder público.

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“O governo federal piorou tudo. Meu marido poderia estar vivo hoje. Meu marido não está vivo por causa dele, porque ele negou as vacinas. Minha mãe poderia estar viva, mas naquela época os médicos estavam todos sobrecarregados”, aponta.

Menos de um mês após a morte de Daniel dos Santos, a vacina chegou para a faixa etária dele. 

“Eu espero que o povo lembre disso e eu peço a Deus que esse vírus cesse. Eu não tive como me despedir, eu não tive o direito de me despedir dos meus entes queridos. Eu espero que as pessoas tenham consciência. A covid está aí e continua matando”, conclui. 

“Tem dias que é difícil levantar”

A tragédia da covid-19 também afetou duplamente a vida do consultor de Marketing Levi Oliveira Mortosa, de 30 anos, morador de Goiânia (GO). Em agosto de 2020, perto do dia dos pais, o pai dele, morador de Itumbiara, interior de Goiás, foi infectado pelo coronavírus. Edson Mortosa, de 58 anos, não pode cumprir o isolamento recomendado para se proteger do vírus porque teve que trabalhar.

No terceiro dia de internação, ele foi enviado para a UTI. O quadro continuou se agravando e o paciente precisou ser intubado, mas morreu durante o processo. 

“Em Itumbiara, agosto foi um mês em que os hospitais estavam no máximo do máximo da lotação. As equipes de saúde também foram vítimas da não instrução, do negacionismo e da falta de recursos”, afirma Levi.

A família ainda se recuperava do baque quando, em junho de 2021, a tia mais nova de Levi, Edriane Mortosa, também faleceu por covid-19.

“O caso do meu pai não me revolta tanto. O que nós íamos fazer? Mas a minha tia estava a uma semana da vacinação”. O jovem não contem as lagrimas ao falar da tragédia que abalou a família duas vezes em menos de um ano, “pensar que ela poderia estar vacinada. Já era junho de 2021! Ela tinha apenas 50 anos!” 

Edriene Mortosa foi internada em 31 de maio de 2021. Ela morava com uma irmã mais velha, que já tinha tomado a primeira dose da vacina e teve apenas sintomas leves. Edriene, no entanto, teve uma queda brusca de oxigenação durante a infecção.

Com o alerta identificado por um oxímetro usado em casa, a família decidiu levá-la para o hospital. Em apenas dois dias de internação, ela foi para a UTI.

A situação vivida pelo pai de Levi meses antes, durante o processo de intubação, foi traumática para toda a família. “Nos momentos em que ela fazia ligações para a família, ela chorava muito pedindo para que a tirassem dali, porque ela não queria ser intubada. Foi um sofrimento muito grande, a gente não podia fazer nada. É uma impotência.”

Ainda enlutado, Levi leva em consideração o privilégio que a família teve de conseguir acesso ao tratamento e a hospitalização, “Eu sei que houve famílias que sofreram muito mais. É difícil pensar que estamos vivendo em meio a tanta injustiça, tantas famílias que foram dilaceradas”, diz.

Na dor da perda, a falta de direito a um velório e a rituais de despedida ainda é um peso. “O que eu mais sinto é não poder velá-los, não estar ali com eles. É uma dor não compartilhada. É muito triste você não poder abraçar, não poder receber conforto”.

“Tudo era eu pela minha mãe e minha mãe por mim”

Mesmo com a falta de conforto até hoje, a jornalista e estudante Marise Catharine de Souza Oliveira encontra forças na memória da mãe para seguir a vida e viver o processo de luto.

Mônica Isabel de Souza Oliveira faleceu em abril do ano passado, aos 55 anos. Ela era diretora de uma escola em São Paulo (SP) e não deixou de trabalhar ao longo da pandemia. Mesmo com as aulas acontecendo remotamente, pelo cargo que ocupava, precisou continuar presencialmente. 

Em março do ano passado, instituições de ensino da cidade começaram a abrir as portas para grupos limitados de estudantes. Nesse período, Marise e a mãe foram infectadas.

Relembre: Famílias criam movimento para pressionar Doria contra aulas presenciais na pandemia

“Nós sempre estávamos juntas, eu só tinha a minha mãe. Minha vida sempre foi eu e minha mãe para tudo. Sou umbandista, me apeguei muito à minha religião. Eu pedi muita força para conseguir passar por aquele momento”, conta.

Com o diagnóstico em mãos, as duas resolveram se isolar em casas separadas. Marise lembra que a mãe disse que o período de separação seriam os piores dias da vida dela. “Eu mal imaginava que seria o começo dos piores dias da minha vida”, relata a filha emocionada.

Mônica piorou e teve que ser internada. Dias depois e sem notícias pelo celular, a família descobriu que ela estava na UTI. “Foi a última vez que eu vi a minha mãe bem. Depois, ela recebeu a visita da secretária dela e pediu para ela cuidar de mim, porque não ia aguentar. No dia seguinte, minha mãe já estava intubada”.

O impacto de se ver sozinha de um dia para o outro ainda não foi amenizado. Marise encontra resistência na memória. Quer dar o nome de Mônica a uma praça no bairro paulistano da Penha, onde a família morava, e dar continuidade ao legado dela na educação

“Minha mãe não está aqui em vida. Mas ela está olhando por mim de outra forma. Isso me motivava e me motiva até hoje para continuar. Se não fosse a força que ela me passa, eu não sei se estaria aqui para contar essa história”.

Mônica faleceu em 7 de abril. No dia 12 seguinte, ela estaria apta a receber a primeira dose da vacina contra o coronavírus. Marise responsabiliza o governo pelo acesso demorado ao imunizante.

“Eu digo que não é só o estado nação representado pelo Bolsonaro, Paulo Guedes e os ministros da saúde que passaram aí que são os culpados. Também tem a responsabilização do João Dória (então governador de São Paulo pelo PSDB). Ele podia ter começado a vacinação antes na saúde, na segurança pública e na educação, setores que continuaram trabalhando sem parar. O estado de São Paulo também é responsável”, afirma.

“Estamos pecando em deixar que essa história seja enterrada”

A psicóloga Tâmara do Amaral Neves, de 29 anos, nasceu em São Paulo, mas passou toda a pandemia em Manaus, onde vive. Na capital do Amazonas, ela observou as consequências do descaso do poder público e da falta de medidas de proteção para a população.

No meio de 2020, o avô do marido de Tâmara foi vítima da doença, e diversas pessoas da família foram infectadas. “Nós tivemos todo o atravessamento da pandemia em Manaus. Uma situação grave em que eu sinto que as pessoas foram expostas quase que para testar a imunidade coletiva. Muita gente contraiu a doença e lá foi devastador”, lamenta.

Ela relata que, em alguns momentos, chegou a ver carros funerários passarem na rua com sirenes ligadas, uma das únicas formas de homenagem a mortos que não puderam ser velados.

Por conta desse cenário, a quarentena de Tâmara foi rígida. Por dois anos, ela viu os pais, que continuaram em São Paulo, em apenas duas ocasiões, uma delas na Páscoa de 2021. 

No mesmo período, o pai da psicóloga decidiu voltar ao  trabalho de feirante. Com um ano de quarentena, as economias não foram mais suficientes para manter a família. Os dois chegaram a receber o Auxílio Emergencial, que também não deu conta das despesas.

Enquanto Tâmara visitava os pais, os três foram infectados e tiveram que ser internados. A mãe, Mariana do Amaral, teve um quadro grave da doença e precisou ser intubada. No 14º dia de internação, um dia depois do próprio aniversário de 57 anos, ela faleceu.

“Minha mãe contraiu covid apenas 21 dias antes de poder ser vacinada. Se um e-mail tivesse sido respondido antes, ela teria sido vacinada e teria muito mais chances de estar aqui comigo hoje do que de não estar”.

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Tâmara ainda estava hospitalizada quando a mãe morreu, e teve alta um dia depois. A partir de então, a vida da família mudou radicalmente. “Eu sou filha única, sou casada, meu marido trabalha em Manaus e, portanto, eu moro lá. Meu pai ficou sozinho para trabalhar e ele tem muita dificuldade com a vida que ficou para ele”.

Um ano após a morte da mãe, Tâmara e o pai ainda lidam com exames e procedimentos para investigar o impacto que a infecção causou nos dois. “Meus pais gastaram boa parte da economia de uma vida inteira para se manter em casa. Aquilo que era para segurança da velhice deles, foi gasto para ficar em casa. Meu pai tomou coragem de trabalhar porque tinha gasto todas as economias. Não tinha mais condição de ficar em casa e topou encarar”, relata.

A psicóloga coloca o colapso sanitário na conta do poder público, “não houve uma gestão inteligente. O que teve foi dizer para a população que ia ter imunidade coletiva e era para estar na rua para todo mundo pegar mesmo. Que era só uma gripezinha”.

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Hoje, a percepção de Tâmara é de que o Brasil nem mesmo sabe quantas mortes realmente a covid-19 realmente causou, e vai ter que conviver com os erros cometidos ao longo da pandemia. Ela percebe um movimento coletivo que evita falar sobre o que aconteceu.

“É fundamental que a gente retome a memória dessas perdas, dessas pessoas individualmente e desse momento coletivo, político e social. Era para termos monumentos com os nomes das pessoas que perdemos, era para termos memoriais. Era para ter um museu sobre isso”, sugere.

A psicóloga percebe na pandemia a repetição de massacres não nomeados, que se repetem na história brasileira. “A gente se adapta. Meu pai se adaptou, aprendeu a fazer um monte de coisas, cresceu em muitas direções e está se fazendo uma pessoa melhor a cada dia. Mas sinto que temos muito trabalho pela frente, para nós, na nossa vida e para toda a sociedade”.

A luta pela reparação

Em abril deste ano, a Avico pediu ingresso na Ação Civil Pública em que o Ministério Público Federal responsabiliza a União pela má gestão ao longo da pandemia. Entre as requisições no processo está o pagamento de indenização aos familiares das vítimas e às vítimas sobreviventes da chamada “covid longa”.

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A associação também ajuizou uma queixa-crime contra o presidente Jair Bolsonaro, com base no que classifica “inércia formal e material” do Procurador-Geral da República, Augusto Aras. Em junho do ano passado, a Avico protocolou uma outra representação criminal que nunca foi respondida por Aras.

“Não iremos fazer de conta que as mortes pela covid-19 foram um acaso. Quando na verdade, sabemos que houve uma desvalorização intencional dessas vidas. E usaremos todas as medidas cabíveis para responsabilizar o Estado brasileiro e Jair Bolsonaro pelas mortes da pandemia de covid-19”, enfatiza a presidenta da Associação, Paola Falceta.

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Metalúrgicos realizam assembleia geral de dissídio neste sábado

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“Sem auxílio creche para a criança e sem redução no vale transporte, não tem acordo.”

O dissídio desse ano tem um significado muito importante. É necessário reduzir o valor do transporte para o trabalhador e para a trabalhadora e deve ser implementado o auxílio creche para a criança. “Sem a aprovação destas duas cláusulas, não tem acordo,” afirma o presidente Assis Melo. Na Campanha Salarial do ano passado, finalizada após mediação do 4º TRT em Porto Alegre, ficou acertado entre o Sindicato dos Trabalhadores e o SIMECS, que estes dois itens entrariam na negociação de 2024.

A assembleia geral de dissídio para votação de proposta do sindicato patronal acontece no auditório do Sindicato a partir das 9h30 da manhã deste sábado, dia 20 de julho. Haverá transmissão ao vivo pelo Facebook do Sindicato.

Auxílio creche para a criança

Ter o direito a creche negado: essa é a realidade de muitas crianças filhos de casais onde apenas o pai é metalúrgico. Poder deixar a criança aos cuidados de um ambiente propício, auxilia no desenvolvimento infantil e dá segurança aos pais para poder trabalhar sem preocupações. E isso deve ser um direito da criança, não apenas da mãe que trabalha em uma empresa metalúrgica.

Quando esse direito é garantido para a criança, o trabalhador ou a trabalhadora pode contar com um local confiável para deixar seus filhos, os pais podem se dedicar às suas atividades profissionais com tranquilidade, sabendo que eles estão bem cuidados e em um ambiente estimulante.

Redução no valor do vale-transporte

O vale-transporte é um benefício que permite aos trabalhadores e trabalhadoras ter condições de ir e voltar de seu local de trabalho. É uma obrigação legal que leva o empregador a antecipar a cada funcionário o valor necessário para o seu deslocamento a cada mês.

Porém é descontado 3,5% do salário do trabalhador, ou seja, o trabalhador paga para ir e voltar de seu local de trabalho. O impacto do desconto do vale transporte no orçamento já apertado de quem trabalha é muito alto. O trabalhador não tem condições de pagar esse percentual. Está pagando para se deslocar até a empresa e voltar para casa Esse valor precisa urgentemente ser reduzido.

Metalúrgicos já rejeitaram por unanimidade proposta de 3,5% do sindicato patronal

No dia 29 de junho, aconteceu no Sindicato dos Metalúrgicos de Caxias do Sul e região, a primeira assembleia geral de dissídio da campanha salarial 2024. Por unanimidade, os trabalhadores e trabalhadoras presentes que lotaram o auditório do sindicato, rejeitaram a proposta de 3,5% de reajuste apresentada pelo SIMECS.

“Não vamos mudar a situação sem lutar. Essa forma de negociação com o patronal se esgotou porque não leva em conta o esforço dos trabalhadores e das trabalhadoras dentro da fábrica,” disse o presidente Assis Melo.

O presidente também destacou que as empresas tem condições de oferecer uma proposta melhor e não fazem porque não querem. “As empresas são deles, os meios de produção são deles. Mas a inteligência e a força de trabalho são nossas. E essa inteligência e força de trabalho não pode ser o item mais barato nesse círculo da produção,” finalizou Assis, antes da categoria rejeitar por unanimidade a proposta.

A pauta da Campanha Salarial deste ano foi entregue para o sindicato patronal ainda em abril.

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Agro, boi e barragens: entenda as causas da seca e dos incêndios que assolam o Pantanal

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Bioma conhecido por sua áreas alagadas sofre com falta d’água e queimadas recordes

90% dos incêndios do Pantanal são provocados pela ação humana – ROGERIO FLORENTINO / AFP

Pantanal atravessa uma crise sem precedentes em 2024. O bioma, conhecido por suas áreas alagadas por até seis meses ao ano, enfrenta uma seca histórica, a qual contribui com a proliferação de incêndios.

Só no primeiro semestre deste ano, 468 mil hectares de vegetação queimaram no Pantanal – maior área já registrada no monitoramento via satélite realizado pela organização MapBiomas desde 1985. A área queimada foi 529% maior do que a média de 40 anos.

Durante esse tempo, a área alagada diminuiu cerca 60% também na comparação com a média. Entre todos os biomas existentes no Brasil, o Pantanal foi o que mais secou.

Tudo isso, segundo estudiosos ouvidos pelo Brasil de Fato, tem a ver com a ação do homem na região e também fora dela.

Aquecimento global

As mudanças climáticas, intensificadas pela emissão de gases causadores do efeito estufa, mudaram o regime de chuvas. Segundo o engenheiro agrônomo Eduardo Rosa, do MapBiomas, já não chove mais como chovia na área da Bacia Hidrográfica do Alto Paraguai, em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Essa área de planalto é crucial para o Pantanal porque lá nascem os rios que cruzam a planície inundável.

Com menos chuvas, porém, esses rios já não transbordam. Não inundam, portanto, as áreas pantaneiras que costumavam alagar todo ano.

“Secas episódicas têm efeitos muitas vezes duplicados em função do aquecimento global”, acrescentou Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam). “Os rios voadores da Amazônia foram desviados do Centro-Oeste pelo domo de calor da seca. Acabaram atingindo duramente o Rio Grande do Sul”.

Uso do solo

Bocuhy disse ainda que, mesmo quando chove, a água já não chega ao Pantanal como costumava chegar. Isso, segundo ele, tem a ver com a mudança na ocupação da região nas últimas décadas. “O desmatamento, a retirada das florestas e o uso expansivo da agricultura e da pecuária. Isso tem contribuído para a fragilização dos ecossistemas”, disse.

Sem vegetação nativa, a água da chuva penetra menos no solo. Evapora mais rapidamente ou corre diretamente para os rios levando com ela mais sedimentos, que contribuem para o assessoramento dos cursos d’água.

Com menos água no subsolo, as nascentes ficam menos abundantes. Em épocas de seca, elas já não dão conta de manter os níveis d’água em sua média histórica.

Eduardo Rosa, do MapBiomas, ratifica o problema. Segundo ele, o planalto que abastece o Pantanal tinha 23% do seu território usado para agricultura e pecuária em 1985. Hoje, tem 42%. A ocupação do território por lavouras e pastagens causou a eliminação de 2,1 milhões de hectares de área de floresta e 2,7 milhões de hectares de savana, que hoje fazem falta para o regime de cheias da planície alagável.

“Há um problema climático, mas também tem a questão da desproteção do solo e da diminuição de vegetação nativa”, afirmou ele.

Barragens

Soma-se a isso o fato de várias barragens terem sido construídas em rios que abastecem o Pantanal principalmente para a geração de energia. Um estudo publicado em 2022 já alertava para o efeito cumulativo dessas estruturas sobre o bioma, comprometendo os regimes de cheias.

Uma publicação da organização Ecoa (Ecologia e Ação) listava 50 barragens já existentes em rios pantaneiros, sendo sete delas de grande porte. Lembrava ainda que outras 13 estavam em construção e 125 estavam planejadas para a região.

Incêndios

Rosa acrescentou que a falta d’água mudou a dinâmica do fogo no Pantanal. Ele explicou que os incêndios sempre foram usados para o manejo de terras na região. Hoje, contudo, eles têm um potencial destrutivo muito maior, pois avançam sobre um ambiente mais seco.

“Antigamente, era um incêndio muito mais ligado a essa vegetação campestre na área do entorno do bioma. Agora, você tem focos no entorno do rio Paraguai, que é essa área que antigamente era permanentemente alagada”, afirmou. “Essas áreas antigamente não pegavam fogo, mas hoje pegam, afetando mais os animais silvestres.”

Dados da Secretaria do Meio Ambiente do Mato Grosso do Sul apontam que 90% dos incêndios do Pantanal são provocados pela ação humana. Rosa disse que, com as mudanças no bioma, eles tendem a se tornar cada vez mais incontroláveis. A queimada chegou a ser proibida na região em maio para contenção dos incêndios.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, cerca de 96% dos incêndios registrados no Pantanal foram apagados ou controlados até a semana passada. Dos 55 incêndios registrados no bioma até 14 de julho, 31 foram extintos. Já 22 de 24 incêndios que continuavam ativos foram controlados.

Mais de 830 profissionais do governo federal atuaram no combate aos incêndios na região, apoiados por 27 embarcações e 14 aeronaves.

Edição: Martina Medina

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Tribunal Regional Eleitoral cassa mandato de Mauricio Marcon; cabe recurso no TSE

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O deputado federal do RS, eleito pelo Podemos, sofre efeitos de fraude à cota de gênero que teria sido cometida pelo partido nas eleições de 2022

O Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-RS) decidiu que o deputado federal gaúcho Mauricio Marcon (Podemos) deve ter o mandato cassado. Na tarde desta terça-feira (16), sete desembargadores votaram pela cassação. Cabe recurso, a ser julgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Enquanto isso, o parlamentar segue no mandato.

O Podemos é acusado de ter cometido fraude à cota de gênero na lista da sigla para as eleições de 2022. Ou seja, neste caso, de utilizar candidatura laranja para alcançar a cota mínima de mulheres na chapa inscrita à Câmara dos Deputados. Com o julgamento, o TRE-RS determina que o partido perca todos os votos recebidos. Marcon, que faz parte da sigla, também seria responsável pelos atos e pode perder o mandato. 

O resultado da votação foi unânime, de sete votos favoráveis à cassação do parlamentar. O TRE-RS determinou que haja o recálculo da distribuição de cadeiras na bancada gaúcha. O tribunal também decidiu que Marcon não fique inelegível caso a cassação se confirme no TSE.

De acordo com a desembargadora Patrícia Silva Oliveira, relatora do processo no TRE-RS, a candidatura de Marcon está comprometida por vício de fraude à cota de gênero. Em apuração, o TRE-RS afirma que a candidatura de Kátia Felipina Galimberti Britto seria laranja. Conforme dados do TSE, a candidata de Santa Maria teve apenas 14 votos nas eleições de 2022. 

A desembargadora afirma que a baixa votação não é o único indício da candidatura laranja. A relatora cita que Kátia recebeu apenas R$ 235 para distribuição de santinhos, ausência de atos de campanha, inclusive nas redes sociais e TV, a falta de declaração de despesas e a falta de investimentos de recursos financeiros do partido. A acusação também afirma que o Podemos não disponibilizou tempo mínimo de TV para a candidata. 

O deputado é o único eleito do Podemos no Estado. No total, teve 140.634 votos, sendo 52.135 em Caxias. Foi o sétimo mais votado do RS. Marcon e o Podemos podem recorrer, e afirmaram que vão fazer isso. Nesse caso, o processo segue para o TSE para definir se o deputado será ou não cassado. 

Relatora cita teses da defesa

A desembargadora também citou as teses da defesa de Marcon. Conforme Patrícia, os argumentos são de que não existiria a necessidade de readequar a cota de gênero em caso de desistência de candidaturas após homologação da lista do Podemos, a inexistência de fraude já que Kátia recebeu 14 votos em dez cidades diferentes, a existência de movimentação financeira na prestação de contas da candidata, além da opção pessoal dela de não receber recursos públicos ou doações financeiras. 

A defesa afirma ainda que Kátia teve atos de campanha realizados. Sobre a falta de tempo na programação eleitoral, a defesa diz que é de responsabilidade da coligação em que partido fazia parte, que enviou as filmagens para as emissoras.

Em nota, o Podemos também afirmou que vai apresentar recurso. Confira na íntegra:

“É com respeito, mas com enorme inconformismo que o diretório estadual do Podemos recebe a decisão do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Rio Grande do Sul em anular os votos de 318.850 gaúchos confiados ao partido na eleição para deputado federal de 2022, no qual elegeu o deputado federal Mauricio Marcon com 140.634 votos. 

A surpresa se dá pela decisão do TRE em definir como fraude à cota de gênero a votação de uma candidata que obteve votos em dez cidades gaúchas, mesmo entrando no pleito em substituição a outra candidatura feminina, faltando apenas 20 dias para a eleição, sem uso de recurso público e já sem tempo hábil para gravação dos programas eleitorais. Além disso, a referida candidata enfrentou problemas de saúde na família nos poucos dias que lhe restavam para campanha, impactando diretamente seu desempenho. 

Por divergirmos totalmente da medida e confiarmos que a vontade popular e democrática será mantida pela Justiça, faremos todos os esforços para recorrer e mudar essa decisão nos tribunais superiores.”

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